No concelho de Vila Nova de Gaia verifica-se ainda o fenómeno espantoso da permanência das miniculturas locais (hábitos, crenças, rituais, festejos) das freguesias e dos sítios onde a agressividade do betão e do asfalto, a implantação das indústrias, a substituição maciça de espaços agrícolas por zonas urbanas desmesuradas, não destruiram nem apagaram um fundo etnográfico riquíssimo e um conjunto de manifestações de vida e de festa em comum que se mantêm arreigadas nos seus habitantes. O fascínio desta região é nela viverem em conjunto grupos folclóricos (que dançam, cantam e se vestem genuinamente) com fábricas automatizadas; auto-estradas com a sardinha assada na brasa; campos de pastagens verdes por onde passam viadutos de utilização massificada. Região onde a modernidade e a tradição vão a par na memória cultural do seu povo e na transição para as formas de viver o futuro.
Em Madrid, tive a oportunidade de visitar uma das mais recentes obras de Herzog & de Meuron: a Caixa Fórum. Surpreende pela ousadia da intervenção e pela abstracção conseguida relativamente ao volume pré-existente da antiga fábrica. Se se ganham pontos com a nova funcionalidade do local e com uma nova vivência desta pequena praça, perdem-se com algumas articulações internas aquém das expectativas e com um exagerado formalismo no recorte das coberturas, com poucas consequências na vivência dos espaços. A escada que permite o acesso ao edifício, e que constitui o único elemento de contacto com o espaço público liberto no rés-do-chão, participa no edifício no momento de chegada ao átrio, enfatizando-o com um desenho que recorda Rem Koolhaas, na Casa da Música, no Porto. A ligação do átrio aos pisos superiores - de exposição e cafetaria - perde pelo seu carácter fechado e compartimentado. Apesar de tudo, há uma compensação deste facto pelo sobredimensionamento da escada e pelo seu desenho extremamente cuidado. No piso superior, apesar dos bons resultados conseguidos pelo material permeável - com interessantes efeitos de luminosidade - sente-se alguma frustração pelo não aproveitamento de alguns espaços ganhos nos recortes formais como espaços de fruição exterior da cafetaria.
Adalberto Libera desenhou o cinema Airone em 1953. Localizado no quarteirão Appio Latino-Tuscolano, em Roma, previa uma lotação de 800 lugares. Esta obra constitui-se como uma das obras mais engenhosos deste autor: uma estrutura cavernosa localizada predominantemente abaixo da linha-terra. As suas linhas onduladas da cobertura conformam os volumes redondos do teatro subterrâneo. É admirável a importância deste edifício se tivermos em conta o facto de ser percursor de importantes estruturas, como o os Auditórios do Parco della Musica, de Renzo Piano, na mesma cidade. Libera pretendia, com este cinema, construir um monumento ao importante papel italiano na história da cinematografia. Após o período de euforia inicial o cinema fechou, abrindo esporadicamente apenas como estúdio de televisão ou discoteca, entre outros. A Câmara de Roma adquiriu recentemente a estrutura com o propósito de transformá-la em centro cultural.